
17/06 – Sábado (5º dia)
Sábado chuvoso, e na casa de "T", ela e sua mãe se preparavam para ir à casa do Cônego. Ele havia sido secretário ou acessor do Papa João Paulo Segundo, era um velho amigo do pai de "T" e já havia ajudado uma prima de "T" a parar de "ver coisas" quando em seu prédio, a empregada de sua casa havia se suicidado. Ele também era exorcista e a mãe de "T" preferiu levá-la para ele por isso também. Ela achava que "T" poderia estar com "algo ruim" dentro dela. O pai de "T" fazia muitas Igrejas, creches e conseguia muito material para eles, seu pai é engenheiro.
O Cônego não tinha vaga na sexta mas chamou "T" e sua mãe para irrem na casa dele, sem meu pai nem seu irmão. Ele também foi uma peça chave para "T" se acalmar depois da ameaça quando a mãe de "T" ligou para ele e ele falou com ela, disse que ela se acalmasse, confiasse nele que ele conversaria com ela no Sábado.Ela estava em prantos e ele a acolheu. Disse que ela não era a única no mundo que era assim, que existem muitas pessoas desse jeito também e que ela se acalmasse. Ele além de exorcista, é psicólogo e tantas outras coisas. Ele disse que "T" não tinha espírito mal algum, que é uma menina muito boa que tem temor a Deus. Ela já não comungava na missa se achando indigna, culpada por ser assim, sofria muito. Ele tirou toda culpa dela.Até ofereceu a ajuda dele para os pais de "C" e quem da família dela necessitasse.
"T" e sua mãe ficaram no sofá de sua casa, sua mãe com o terço na mão, rezando muito, enquanto "T" chorava e dizia a sua mãe que sentia muita falta de "C" e não entendia como isso era um pecado. Enquanto isso o Cônego se preparava em sua biblioteca, rezando e pedindo luz para dizer as melhores palavras para "T" e sua mãe. Quando "T" o viu, começou a chorar mais ainda, tudo que ela guardava dentro dela, toda culpa, tudo. Toda saudade de "C", chorou tudo, então ele foi lá dentro na sala dele e a chamou depois. A mãe de "T" ficou lá fora, continuou rezando o terço. "T" foi para uma biblioteca com ele. Tinham muitos livros, as paredes lotadas de livros, em italiano, várias línguas, então ela sentou lá, chorando ainda, tremendo muito, ele disse que tinha 64 anos, 32 ou 34 que se ordenou, e começou a dizer que chegam várias pessoas lá, com diversos problemas, de muitas cidades do Brasil: Curitiba, Brasília, Goiânia, Pará, Fortaleza, ente outras. Disse que todo problema que a gente tem, a gente pensa que é o pior do mundo e somos tão cruéis com nós mesmos, que esquecemos de ser felizes. Disse que para tudo na vida existe uma causa ou uma culpa. Deu o exemplo de um doente hepático, ele não tem culpa de ser doente, mas quem bebe, tem culpa de adquirir uma cirrose hepática. Disse que eu não tenho culpa de ser assim, que o ser humano é feito de cromossomos, que fazem a gente gostar ou não das coisas, ser do jeito que somos, e com essas nossas características, que não foram adquiridas, já vieram no nosso corpo, podemos ser impacientes, nervosos, e até gostar de pessoas do mesmo sexo, e isso não há cura, não há remédio, não é doença, as pessoas simplesmente são assim.
Ele disse que a Igreja não condena os homossexuais, os que têm amor no coração, porque uma relação de amor inabalável pode ser aceita como uma coisa divina. É amor. Deus não quer ver ninguém infeliz, reprimido, preconceituado. É uma coisa sagrada de quem é assim, não devemos compartilhar isso porque a sociedade é podre, cheia de moralismos, por isso que não se deve contar às pessoas que somos assim, mas resolvemos confiar nos nossos pais, a gente estava muito distante, mas ele disse que os pais têm que apoiar e respeitar os filhos, dar apôio e aceitá-los como eles são. Não rejeitar nem reprimir os sentimentos dos filhos. Concordo que há um sofrimento em pensar que poderemos ser humilhadas, sermos uma vergonha para eles, mas se o problema era esse, elas até já fariam um acordo com eles de não assumirem publicamente, seriam discretas. A Igreja não libera isso porque existe uma diferença entre devassos, doentes mentais tarados, que só pensam em sexo tanto com homem, quanto com mulher, vulgaridade, luxúria, e isso se aplica da mesma forma aos heterossexuais. O homem que trai a mulher por exemplo, etc. Disse que se elas soubessem que os pais não aceitariam, era melhor nem terem contado para não magoar já que eles não as aceitariam e esse segredo seria só delas, mas era tarde. Eles já tinham rejeitado-as, atirado todas as pedras que tinham em seus bolsos contra as duas. Fizeram o maior mal que poderiam fazer a elas. Tirá-las uma da outra.
"T" confessou ao Cônego que só tinha amor por "C", só isso, que não era promíscua, era totalmente monogâmica e isso não era nenhum sacrifício para ela e disse que precisava muito do carinho de "C". Disse que era ela quem amava com todo respeito e carinho do mundo. Que ela a fazia feliz como ela nunca pôde ser, e disse que sabia que também a fazia feliz porque elas eram um caso raro, único quase, de pessoas que se amam de verdade, e principalmente pessoas assim, que são tão desequilibradas, nesse mundo tão cheio de desamor, opressão, interesses, falta de caráter, drogas, etc.
Depois o Cônego começou a contar histórias de pessoas homossexuais. Contou a história de um executivo de Curitiba que encontrou com ele no aeroporto e disse com os olhos cheios de lágrimas, que era casado e tinha uma filha. Nunca aceitou a homossexualidade dele porque os pais o reprimiram quando ele era dependente deles, e hoje, tem que trair a mulher para ser feliz, apesar de querer muito bem a mulher dele, ele tem essa necessidade de carinho "diferente". Tem uma filha para cuidar, e acha que errou no dia que casou, é infeliz por ter que amar o amigo e ter que lidar com o casamento, a filha e a esposa. Ele sempre achou que podia superar, mudar. Imagine a vida desse homem.Se essas informações tocassem o coração dos pais, acho que eles não iam querer esse tipo de vida para suas filhas. Aquele homem, disse o cônego, errou em ter casado, mas deve consertar o erro. Deve se separar da esposa pois engana ela, maltrata seu próprio coração mentindo pra si mesmo e comete o adultério. A esposa está enganada, a filha também, e ele, infeliz. Ele deve pedir perdão não por ser homossexual, e sim por ter jurado amor perante a Deus a uma pessoa que ele não teve condições de dar esse amor eterno.
Contou a história de uma juíza, que dia após dia quando tinha que ter relações com o seu marido, chegou ao ponto de ir vomitar, tomar banho!! Depois que ficou louca sem saber o que fazer, porque ela estava fazendo um mal a ela mesma e ao marido. Ela também errou em ter casado, ter fugido dessa realidade.
Ele disse a "T" que não casasse, porque poderia acontecer essas coisas com ela. Disse que se Deus colocou no mundo pessoas assim, tem alguma razão e existe uma diferença de gostar de pessoas do mesmo sexo, gostar, amar, se dedicar, querer fazer a pessoa feliz, e ser devasso, doente mental, infiel, aventureiro por coisas novas na vida machucando outros. "T" e "C" não faziam mal a ninguém, mas os pais de "C" faziam um mal talvez irreparável tanto pra sua filha como para "T".
"T" então disse que só queria poder amar na vida, que nunca quis saber de amor porque não conhecia, e "C" é a coisa mais linda e maravilhosa que já aconteceu em toda sua vida, ela, só naquele momento, aos 26 anos, conheceu o amor verdadeiro e recíproco. Elas se respeitavam muito, passaram por muitas coisas, construíram sonhos, se sentiam ao mesmo tempo culpadas, arrasadas por não serem as filhas que seus pais tanto sonharam. "T" era o exemplo da família, mas ninguém a conhece realmente.Se soubessem, todo o conceito de "T" mudaria. Ela perderia todas as suas qualidades (por isso o padre pediu para não contarem a mais ninguém) e se tornaria uma pessoa suja por amar "C"? "C" seria a culpada por "T" ser assim? Não. "T" é uma pessoa má por causa disso? Não. "C" deseja o mal da família de "T" por amá-la? Não.
"T" então foi para casa, sua mãe deu um calmante a ela. Disse ao pai de "T" que o Cônego rezou com ela e ela estava bem. O pai de "T" deve ter esquecido do assunto depois desse dia. "T" pediu também ao padre que abençoasse uns escudinhos do Sagrado Coração de Jesus e ela mandaria para Rúfia, a mãe de Rúfia e um para "C". Era a única lembrança de "T" que "C" teria depois se ela conseguisse de alguma forma entregá-la.
À noite, notícias de "C". A babá da irmãzinha dela ligou para Rúfia:
Babá: Rúfia?
Rúfia: é sim!
Babá: eu sou a babá da irmã de “C”...
Rúfia: hum...
Babá: “C” pediu pra eu ligar para você e dizer que ela está bem, que ela está trancada dentro de casa sem sair e seguranças estão com ela... ela não fala com ninguém e só consegue falar comigo por cochicho e mesmo assim é muito difícil. Por que a mãe dela proibiu de chegar perto dela e de dar qualquer coisa a ela.
Rúfia: poxa!
Babá: é, e também pediu pra dizer que você não ligue pra ela e nem fale nada dela pelo teu celular ou pelos outros telefones teus por que podem estar todos grampeados. O da casa dela está grampeado também.
Rúfia: ta bom! Ta certo! Tu salvou uma alma hoje! Obrigada!
Babá: oh, tu não tem nenhum recado pra mandar pra ela não?
Rúfia: diga a ela que A GENTE tá com ela, que A GENTE tá ESPERANDO por ela, que A GENTE reza por ela todos os dias e... tu tem algum papel pra anotar umas letrinhas que eu quero que tu dê a ela?
Babá: tenho, pera.
(Então, Rúfia escutou a voz de uma terceira pessoa. Voz de homem, que ela achava que fosse o namorado da babá.
Babá: diz, que eu vou anotar aqui no celular. Por que não tem caneta.
Rúfia: tá! ETAMQOEMQA...
Babá: ta, eu vou dar a ela e ela vai entender né?
Rúfia: é.
Babá: tá. Xau
Rúfia: xau “Babá” e obrigada.
Essa foi a primeira notícia que elas tiveram de "C", mas elas não sabiam se era ou não de verdade. Pois poderia ser que eles estivessem chantageando a babá. "T" e Rúfia estavam meio sem acreditar. Mas ao mesmo tempo elas tiveram que criar uma esperança.
A providência religiosa que a mãe de "C" tomou foi levá-la para uma freira, onde disse que "C" estava com um namorado que não prestava. A freira então disse que ela era jovem, que Deus faria ela encontrar uma pessoa boa.
"T" nesse dia foi para a missa e com a bênção do Cônego, comungou, com a alma limpa de culpas.
3 comentários:
Oi TC, sabe qual é o problema de vocês? Vocês não têm maldade! Portanto não têm proteção.
Quando a gente conhece a maldade humana desde a infância a gente aprende a conhecer as intenções por trás das atitudes, dos olhares, dos silêncios...
Sabe TC, todo covarde se fortalece no silêncio!
Mas a minha maior preocupação é com a vulnerabilidade de vocês, principalmente de C.
E pelo que percebo os pais dela são muito poderosos... portanto mais ainda capazes de qualquer coisa para não passarem vexame diante da SOCIEDADE.
Eu não consigo para de pensar em vocês... é dia e noite. Agora mesmo, são 03:33min e eu não preguei o olho.
Durma em paz e que ela também!
Deus em sua infinita misericórdia há de encontrar um caminho pra sair desse cativeiro.
Oh Pai eterno, assim como fortalecestes os primeiros cristãos contra a ignomínia, ajuda a todos nós os teus filhos indefesos diante da tirania dos poderosos!
Meu Deus!... Pai!... O que tá acontecendo com a humanidade?
Acolhe Senhor em Teu coração as chagas abertas dessas crianças!
Sede Senhor seus primeiros refúgios e fortaleza!
Se eu pudesse não estaria apenas em oração... mas a gente tudo pode naquEle que a gente confia!
Sintam-se abraçadas e cuidem-se - cada uma de si, porque vocês são a preciosidade uma da outra!
Paz e Bem! Jaira
Estarei sempre com vcs!!!!! O que for preciso eu faço. vcs nao estaou sozinhas!!!!! bjos
Esses dias foram os piores.. a gnt nem sabia o q fazer.. n sabia em qm acreditar.. cm ter noticias de "C"..nd.. a mae dela nos pegou desprevenidas.. ao msm tempo q a ligação da baba nos deu uma esperança.. tbm nos passou mais medo.. era coisa q eu so imaginava por filmes.. q acontecia ou com as pessoas mais ruins do filme ou com as boazinhas.. qdo estavam sendo injustiçadas.. e pelo visto.. era o q acontecia na vida real..
o sufuco p mim.. tinha aumentado.. pq agora eu tbm estava sob ameaça.. a ideia de ter telefones grampeados.. por mais q soubessemos q isso so era possivel se a policia autorizasse.. e nesse casos a policia n teria nd a ver.. morremos de medo.. nem tocavamos no cel.. e qdo eu e "T" nos falamos pelo telefone.. diziamos coisas loucas.. com medo q alguem pudec ta escutando..
hj a gnt pode ate rir da situação.. pq peloq eu me lembre a gnt fikva mandando msg ou falando pelo msn p combinar uma historinha.. e ligar p ota falando a historia decorada.. dizendo q "T" ia dxar "C" optar.. e tals.. usavamos isso como forma de enganar qm qr q estivec ouvindo..
mas na epoca.. era a unica coisa q podiamos fazer..
pensamos em escrever um diario..
e tds os dias.. cada uma acrescentava um pouco do q tiha acontecido no dia.. em relação a "C".. desdes os fatos (as ligações da baba q depois se tornaram mais frequentes) a mera lembranças q nos confortavam mais..
"T" ate pensou em organizar umas pessoas de Recife pra vestir camisa na faculdade de "C" com as letrinhas q elas tinham como codigo..
a imaginação era bem fertill.. isso era o q nos mantinha de pe.. isso e a ctz.. la no fundo.. q por mais "tortura" q "C" sofrec.. ela n ia esquecer "T"..
parece ate drama.. ou.. historinhaa p enfeitar blog.. mas eh a verdade..
o q mais preocupa n era a possibilidade de "C" esquecer "T"
mas sim.. o q a familia dela seria capaz de fazer pra q isso acontecesse..
cm sabiamos q era impossivel, imaginavamos q "C" ou ia ter q sofrer mto.. ou ia ter q ceder alguma hora.. e fingir q "T" nunk existira pq a familia dela tinha mta influencia e poder
e ate tinham armas.
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